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O tempo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012



Passam as horas, passa o tempo, passa a vida...

Analisando os ponteiros do relógio se movimentando – movimento um tanto rotineiro com certa monotonia. 

Percebe-se a repugnante importância que damos aos horários – ao tempo. Muitas vezes o tempo acaba sendo mais importante do que o próprio ato de viver.

Uns vivem de lembranças do passado, ficando presos há tempos que já se foram. Esquecendo-se de viver o que realmente importa. Outros se preocupam muito com o tempo futuro fazendo de tudo pra garantir uma boa vida, mas esquecem de viver o presente.

Só que o tal futuro nunca chega e o tal indivíduo que lutava pra para ter um bom destino acaba nunca vivendo de verdade... 

Quando crianças o tempo pouco importava. 
Só marcava o período entre uma brincadeira e outra. Só determinava a hora de brincar na rua e o momento da brincadeira no tapete de casa.  

Na adolescência a vontade de crescer e a espera pelos primeiros sinais de maturidade tornavam lento o passar das horas.  É o momento da vida onde o relógio parece estar com pilhas fracas devido à velocidade com que se mexiam os ponteiros.

Na idade adulta parece não haver mais tempo pra nada. São tantas necessidades e obrigações que às vezes não se encontra tempo nem para a felicidade...

No fim não passamos de estranhos seres que precisam do tempo para viver, mas acabam sendo controlados pelo mesmo.

O tempo – os horários eram para ser benéficos. Ao menos na teoria é assim. Uma ferramenta de ordem, talvez. Contudo, acabamos reféns de algo criado por nós mesmos.

Willian Rannow Budke

Crônica: O homem trocado

domingo, 11 de dezembro de 2011


Encontrei uma crônica muito engraçada de Luís Fernando Veríssimo e fiquei praticamente na obrigação de compartilhar com vocês. Espero que gostem!
   
O homem trocado
O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é lírio?
- Era pra ser Lauro. Enganaram-se no cartório e...
 Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? – perguntou hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?
Luís Fernando Veríssimo

Cenas brasileiras

domingo, 20 de novembro de 2011


A crônica é um gênero muito interessante, são cenas cotidianas, rápidos flagrantes da nossa realidade, o livro “Cenas brasileiras” de Raquel Queiroz é um livro de ótimas e engraçadas crônicas, são pequenos textos relatando as simples coisas e histórias da vida.


Síntese: Num clima de deliciosa conversa com o leitor, Rachel Queiroz desfia nas crônicas aqui reunidas histórias tocantes da gente brasileira. Crianças que descobrem o mundo, adultos que lutam pela sobrevivência sem abrir mão dos sonhos, casos curiosos que divertem e atitudes inesperadas que dão o que pensar. Rápidos flagrantes da nossa realidade na voz de uma das maiores escritoras do Brasil.


Trecho extraído do livro...

“... um bêbado chegou ao botequim-restaurante, meteu a colher de pau na farinheira e jogou na boca uma colherada de farinha. Mas no próprio momento em que levantava a colher, o português do balcão interferiu, gritou-lhe que “respeitasse a higiene”. Por causa do susto, ou da pontaria errada, o fato é que a farinha caiu no goto do homem, e quase matou sufocado. Foi preciso bem um copo de cachaça para desengasgar. E depois, como aparentemente o atacara uma vontade irresistível de comer farinha, o bêbado, para evitar novo engasgo, mandou encher outro copo de cachaça, jogou dentro um punhado de farinha, misturou e comeu o pirão de colher. Ao acabar, foi dormir na areia da praia e, segundo me contaram, só acordou horas mais tarde, quase afogado pela maré que subia...”


Obs.: Não o encontrei para baixar na internet, mas como é um clássico da literatura brasileira, é facilmente encontrado em bibliotecas.


O que acharam deste livro? Comentem...

O lixo - Luiz Fernando Veríssimo

domingo, 31 de julho de 2011

Imagem de Gonmi

A crônica é um gênero textual muito interessante, ela expressa uma crítica de uma forma engraçada, vejam essa crônica abaixo de Luiz Fernando Veríssimo.

O lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com o seu pacote de lixo. 
É a primeira vez que se falam. 
- Bom dia. 
- Bom dia. 
- A senhora é do 610. 
- E o senhor do 612. 
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... 
- Pois é... - Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... 
- O meu que? 
- O seu lixo. 
- Ah... 
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena. 
- Na verdade sou só eu. 
- Humm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata. 
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar. 
- Entendo. 
- A senhora também. 
- Me chama de você. 
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champions, coisas assim. 
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra. 
- A senhora... Você não tem família? 
- Tenho, mas não aqui. 
- No Espírito Santo. 
- Como é que você sabe? 
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. 
- É. Mamãe escreve todas as semanas. 
- Ela é professora? 
- Isso é incrível! Como você adivinhou? 
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. 
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. 
- Pois é... 
- No outro dia, tinha um envelope de telegrama amassado. 
- É. 
- Más notícias? 
- Meu pai. Morreu. 
- Sinto muito. 
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. 
- Foi por isso que você recomeçou a fumar? 
- Como é que você sabe? 
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo. 
- É verdade. Mas consegui parar outra vez. 
- Eu, graças a Deus, nunca fumei. 
- Eu sei, mas tenho visto uns vidrinhos de comprimidos no seu lixo... 
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou. 
- Você brigou com o namorado, certo? 
- Isso você também descobriu no lixo? 
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. 
- É, chorei bastante, mas já passou. 
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos. 
- É que estou com um pouco de coriza. 
- Ah. 
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. 
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. 
- Namorada? 
- Não. 
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. 
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. 
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. 
- Você está analisando o meu lixo! 
- Não posso negar que o seu lixo me interessou. 
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia. 
- Não! Você viu meus poemas? 
- Vi e gostei muito. 
- Mas são muito ruins! 
- Se você os achasse ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. 
- Se eu soubesse que você ia ler... 
- Só não fiquei com ele porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? 
- Acho que não. Lixo é domínio público. 
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? 
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... 
- Ontem, no seu lixo. 
- O que? 
- Me enganei, ou eram cascas de camarão? 
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. 
- Eu adoro camarão. 
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... Jantar juntos? 
- É. Não quero dar trabalho. 
- Trabalho nenhum. 
- Vai sujar a sua cozinha. 
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora. 
- No seu lixo ou no meu... 
Luiz Fernando Veríssimo








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